quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Resumo das Obras Literárias da URCA 2013.2

ESSA NÃO MATÉRIA NÃO REFLETE UM RESUMO FIEL DAS OBRAS EM QUESTÃO. POIS AS OBRAS FORAM DEBATIDAS E RESUMIDAS NOS GRANDES SEMINÁRIOS, DEBATES E PALESTRAS FEITAS NOS CURSINHOS DA REGIÃO. TRATA-SE DE UMA BUSCA QUE EU FIZ NA NET EM BUSCA DESTAS OBRAS E ENCONTREI ALGUMAS LEITURAS INTERESSANTES, PORÉM, FORNECE MAIS UMA NOÇÃO DO QUE SE TRATA AS LEITURA DOS LIVROS EM QUESTÃO. É PARA AQUELES QUE NÃO TIVERAM ACESSO AS PALESTRAS, E PODEM FAZER ESSA LEITURA ATRAVES DESTE APANHADO QUE FIZ NA NET. BOA LEITURA E SUCESSO NA PROVA. FACA, de Ronaldo Correia de Brito _______________ Nos contos de Faca, Ronaldo Correia de Brito concilia a tradição regionalista com uma noção de fatalidade que não conhece tempo nem lugar É aventura temerária aquela do escritor que ainda hoje se atreve a embrenhar-se pelo sertão nordestino seguindo a trilha aberta pela literatura regionalista brasileira. Não porque seja ele território desconhecido, mas justamente pela razão contrária: a antiga terra ignota dos modernistas da primeira metade do século 20 já não parece guardar tantos mistérios assim. Já explorado em dúzias de obras, esse universo de geografia inclemente e tradições arcaicas carrega o risco de ser reproduzido segundo velhas e gastas fórmulas, obedecendo a um esquema gravado no imaginário coletivo. Que segredos o fim do mundo pode ainda guardar? Faca, coletânea de contos do cearense Ronaldo Correia de Brito, é um dos livros que mais se aproximaram de responder a essa pergunta recentemente. E o faz de um modo bastante curioso: na superfície, não há nada nele que surpreenda. Ao longo de suas 11 narrativas, surgem as mesmas situações e personagens que a tradição literária tornou familiares: amores abismados até a morte, honra, traições, emboscadas, vendetas, valentões, bandidos e mulheres virilizadas em um mundo hostil e duro. Não falta nem mesmo, aqui e ali, a musicalidade daquela linguagem de coloquialismos estranhos, mas exatos na expressão de angústias e perigos, com seus “rastros de gemidos e desfeitas”, “dolorosos aboios” e “cerrações de unha-de-gato”. Contudo, em cada uma dessas características conhecidas, Brito insere, com o cuidado de quem parece saber que nem tudo pode ser dito, os sinais que apontam para uma realidade que, não importa o quanto se pense decifrada, segue um ritmo que nos escapa. Nos enredos de Faca, predomina uma noção de atemporalidade que não é apenas aquela que se entrevê na persistência dos valores de um passado longínquo e na sucessão das horas mortas: ela está, sobretudo, numa espécie de fatalidade essencial, que conduz tudo e a todos ao desaparecimento, ao esquecimento, à morte. É aí que o escritor encontra a sua singularidade. Em Faca, Brito retorna, por exemplo, a um dos arquétipos mais antigos da tragédia: a de que o mal surge no seio da própria família, que, ao fim, é encaminhada para a extinção. Em Redemunho, um dos melhores contos do livro, isso surge exemplarmente no confronto entre filho e mãe, os últimos remanescentes de uma família aristocrática: ele, traído pelo irmão; ela, cúmplice do crime. Em Inácia Leandro, o embate se dá entre irmão e irmã; em Cícera Candóia, entre filha contra a mãe, numa família marcada pelo parricídio. Mesmo em Faca, Mentira de Amor e A Escolha, em que os crimes envolvem, em circunstâncias as mais diversas, marido e mulher, as razões nunca são passionais no sentido habitual: há algo mais perverso – como um destino que não pode ser evitado. De certo modo, o mundo arcaico de Faca funciona como uma espécie de pretexto para voltar a perscrutar aqueles segredos que são próprios do ser humano e independem de época ou de lugar. A terra ignota da literatura regionalista é, na verdade, o território dos terrores mais íntimos e antigos do homem – é quando, para se usar uma expressão consagrada, o regional se transforma em universal. Se um escritor como Ronaldo Correia de Brito consegue ao menos se aproximar dessa humanidade primitiva, escapando das armadilhas das fórmulas gastas, seu papel está cumprido. Mesmo que, no fundo, suas histórias sejam sempre tragicamente conhecidas. BRAVO!, abril de 2003 Análise da obra ______________ Na obra Contos Negreiros, Marcelino Freire ______________ aborda temas delicados e polêmicos como racismo, turismo sexual, tráfico de órgãos e homossexualismo. A paisagem urbana é o cenário principal de seus cantos (contos). Algumas paisagens de importantes centros urbanos, como Recife e São Paulo, como as zonas de prostituição, morros, favelas e pontos turísticos, tornam-se palcos para a exposição de uma realidade complexa e miserável, vivida por prostitutas, “bichas”, negros, índios, além de abrigar traficantes de órgãos e de drogas, e turistas sexuais. Marcelino Freire apresenta 16 narrativas (contos e crônicas) que procuram aproximar-se de uma linguagem coloquial, memorial e, às vezes, musical, baseada nas influências deixadas pela oralidade das ladainhas e canções nordestinas. Ele escreve a partir do ponto de vista de brasileiros miseráveis ou mortos-vivos, que, como “zumbis”, vendem de tudo para sobreviver: drogas, o corpo, o rim. Sua criação literária passa pela valorização da memória, oriunda das heranças culturais – a cultura popular nordestina – e a percepção de um tempo presente. As experiências ocorridas no dia a dia das metrópoles brasileiras apresentam testemunhos de sujeitos que estão à margem da sociedade contemporânea. Sujeitos sem voz, sem espaços para o testemunho, vistos quase como objetos ou tratados como objetos pela mídia e por toda sociedade. Embora o título do livro e a capa do mesmo, com uma imagem de um homem negro (possivelmente escravo), indiquem, num primeiro momento, que as narrativas são dedicadas a histórias sobre o negro, o autor não parte do preconceito ao negro ou de sua realidade de exclusão para compor sua obra. Ela é composta pela experiência de exclusão de todos os “mortos-vivos” que perambulam pelas ruas dos grandes centros do país, independentemente da cor da pele. A narração de uma experiência guarda algo da intensidade do vivido, seja por aqueles que narram sua própria experiência ou por aqueles narradores observadores que narram a experiência do outro. Nos Contos Negreiros, são narrados acontecimentos comuns à vida de sujeitos comuns. Fatos do dia a dia narrados por seus protagonistas, aqueles que sempre têm suas vozes emudecidas pelos próprios acontecimentos dos quais são autores. Para tanto, Freire utiliza-se, como já citado, da oralidade, da memória, ora do relato objetivo, ora do relato subjetivo, para desenvolver testemunhos que não visam formar uma identidade, mas apresentar as condições extremas vividas em plena contemporaneidade. Tais condições são encontradas no “canto” Nação Zumbi, que apresenta a história de um personagem sem nome, que estava prestes a fechar um negócio: a venda do próprio rim para traficantes de órgãos. O personagem narra com indignação e frustração a interrupção da compra, a impossibilidade do fechamento do negócio. A polícia descobre a trama e o desfecho da história é a afirmação: “sei que vão encher meu rim de soco”. Ele acreditava que a venda do seu órgão era uma forma de mudar de vida, de “livrar sua barriga da miséria”. O texto mostra a pobreza, o comércio ilegal, o corpo como moeda, como pode ser lido na seguinte passagem do conto: “E o rim não é meu? Logo eu que ia ganhar dez mil, ia ganhar. Tinha até marcado uma feijoada pra quando eu voltar, uma feijoada. E roda de samba pra gente rodar (..) E o rim não é meu, sarava? Quem me deu não foi Aquele-lá-de-cima, Meu Deus, Jesus e Oxalá? (...) O esquema é bacana. Os caras chegam aqui levam a gente para Luanda ou Pretória. (...) Puta oportunidade só uma vez na vida (...)”. Na história acima, o protagonista teria que ir a Luanda ou Pretória para fazer sua cirurgia. As metrópoles, desde o período moderno, surgem como centros para a formação cultural, intelectual e profissional do homem que, então, através do trabalho, gera o progresso. No entanto, elas tornaram-se também o cenário mais comum dos processos ilícitos construídos pela humanidade: tráfico, sequestro, violência, roubos. O autor abriga seus personagens dentro das zonas mais inóspitas da cidade, mas sem deixar de produzir um fascínio nos próprios personagens (e nele mesmo). O testemunho representa as experiências de um coletivo que as torna, sobretudo, comunicáveis. Algo que, embora possa virar notícia, não torna a experiência uma mensagem a ser legitimada. Segundo Beatriz Sarlo, para existir a experiência é necessário que a narração esteja unida ao corpo e é exatamente esse tipo de narração que é feito pelos personagens dos Contos Negreiros, pois suas experiências são contadas com os próprios corpos e através da memória do seu autor. As experiências do nordestino que muda para a cidade grande oferecem a Marcelino Freire uma série de acontecimentos e histórias que são transformadas em relatos do cotidiano dos personagens excluídos. Os testemunhos dos personagens apresentam a vida do citadino, em particular daqueles que habitam no submundo da cidade, vivendo à margem, mas que ganham voz e corpo nas narrativas do autor pernambucano. Os sujeitos-testemunhas transmitem suas experiências fatídicas, entretanto, esses personagens não são mais importantes que os efeitos dos seus testemunhos ou que as mensagens transmitidas pelos seus relatos. Para Beatriz Sarlo: “Em suma, não se pode representar tudo o que a experiência foi para o sujeito, pois se trata de uma matéria prima em que o sujeito-testemunha é menos importante que os efeitos morais de seu discurso. Não é o sujeito que se restaura a si mesmo no testemunho do campo, mas é uma dimensão coletiva que, por ocasião e imperativo moral, se desprende do que o testemunho transmite”. O testemunho na obra de Freire nasce de um anseio subjetivo, mas que expressa situações limites vivenciadas por um coletivo, revelando, portanto, o cenário que compõe a vida contemporânea nas cidades brasileiras, embora pareça distante e imperceptível à nossa sociedade. As experiências dos seus personagens-testemunhas são comunicadas a partir de uma linguagem que beira a oralidade, vinda das ruas para dentro do texto escrito. O relato testemunhal dos personagens-excluídos de Marcelino Freire nos permite enxergar com mais lucidez a realidade vivenciada por eles e que apontam para uma visão realista e literariamente ligada ao contemporâneo. Um dos textos mais criativos do livro é "Linha de tiro", diálogo que se repete indefinidamente, como aquelas figuras dentro de figuras dentro de figuras, com as quais Magrite brincava com grande habilidade. A conversa é um assalto em que a mulher acha que o assaltante lhe quer vender chocolates. Serve para mostrar a infinidade de mal-entendidos que é esta nação, pois nem o assaltante se consegue fazer entender: diante da ameaça não há pânico, apenas estranhamento, como se cada um falasse uma língua diversa e nem mesmo o gestual tivesse um significado: "É um assalto! Não, obrigado, hoje não vou querer chocolates". É um texto rico para pensarmos a dificuldade histórica que o Brasil tem de elaborar um discurso constitutivo, em que todos falem um idioma comum em prol da construção de algo duradouro e consistente. "Yamani", trata de um assunto quase ignorado na nossa prosa: o turismo sexual e a exploração de crianças prostituídas. Um turista, ao viajar pela Amazônia, deixa claro sua aversão ao Brasil e suas florestas, mas, ao mesmo tempo, narra seu desejo por uma criança indígena (prostituta), como é possível observar neste trecho: “E os índios? O que tem os índios? O que você achou dos índios do Brasil? Fodam-se os índios do Brasil. Toquem fogo na floresta. Vão à merda (...) Só lembro de Yamami. Sempre gostei de crianças. Aqui é proibido. Yamami, meu tesouro perdido (...) Indiazinha típica dos seus trezes anos. As unhas pintadas, descalçadas. Tintas extintas na cara. Coisinha de árvore (...)”. No conto, o estrangeiro revela seu descaso referente à natureza e ao povo brasileiro. Seu interesse pela indiazinha Yamami, de treze anos, é puramente sexual. A crítica à situação dos índios e à exploração de crianças no Brasil é direta: “Lá posso colocar Yamami no colo e ninguém me enche o saco. E ninguém fica me policiando. Governo me recriminando”. Nota-se que o texto nos oferece a experiência vivida por um estrangeiro no Brasil, que viaja pela Amazônia e se encontra com “uma indiazinha”. O testemunho aqui se dá de duas formas: a primeira é a visão desinteressada e alienada que esse estrangeiro tem sobre o país, nada disposto a conhecer a cultura, as tradições, a floresta ou os problemas sociais da Amazônia. Por outro lado, esse mesmo personagem nos apresenta à realidade: o turismo sexual e a prostituição infantil que tomam conta das capitais do país e a marginalização dos nossos índios. A história, em princípio, surge como um simples relato de mais um turista vindo ao país, interessado nas “belezas tupiniquins”, mas que ganha uma dimensão maior ao denunciar uma situação-limite. "Solar dos príncipes" traz um grupo de moradores de uma favela que resolve filmar o dia a dia dos moradores de um condomínio de luxo, um toque sarcástico para comentar a onda que tem sido engomadinhos com uma câmera na mão entrando nas favelas para registrar o ‘inusitado’ e ganhar prêmios internacionais em cima da miséria alheia. Aqui os papéis se invertem, mostrando a situação num avesso cheio de pequenas sutilezas. Já se inicia anunciando a que vem: “Quatro negros e uma negra pararam na frente deste prédio”. Trata-se de um grupo de amigos do Morro do Pavão que quer filmar um apartamento e fazer uma entrevista com um morador. Quando o porteiro, também negro, impede a entrada do grupo, o narrador desabafa: “A ideia foi minha, confesso. O pessoal vive subindo no morro para fazer filme. A gente abre as nossas portas, mostra as nossas panelas, merda”. O incômodo com o fato de permitir a entrada aos de fora, mas não ser recebido quando se desloca ao bairro rico, é manifestado pelo narrador. Ainda, denuncia-se a visão distorcida dos que documentam a periferia: “A gente não só ouve samba. Não só ouve bala”. Ao fim, o porteiro chama a polícia e, assim, a estreia dos quatro aspirantes cai na mesmice: novamente o filme tem tiro e sirene da viatura policial. "Nação Zumbi", como já citado acima, é um dos pontos altos do livro conta a história de um homem preso por tentar vender o próprio rim, que afinal, era dele, podia fazer com o órgão o que lhe desse na telha. Há um diálogo com o personagem andarilho de "Cronicamente inviável", filme pouco visto e que tirante alguns exageros, poderia colocar na pauta do dia assuntos que urgem ser discutidos - e sem hipocrisia - pela nossa sociedade. O preconceito racial é retomado. O narrador tenta provar de que maneira a venda de seu rim o tiraria da situação de pobreza em que se encontra. No entanto, o tom de decepção de sua fala e a chegada dos policiais no fim da narrativa prenunciam o seu destino: “A polícia em minha porta, vindo pra cima de mim. Puta que pariu, que sufoco! De inveja, sei que vão encher meu pobre rim de soco”. "Coração" é um texto mais longo, em que salta a veia narrativa de Freire. Seu tema é a homossexualidade. Em “Totonha”, uma senhora discursa sobre os motivos de não querer aprender a escrever: não é mais moça, não tem importância alguma, não quer baixar a cabeça para imprimir seu nome em um pedaço de papel. Totonha argumenta: “O pobre só precisa ser pobre. E mais nada precisa. Deixa eu, aqui no meu canto. Na boca do fogão é que fico. Tô bem. Já viu fogo ir atrás de sílaba?”. Em“Trabalhadores do Brasil”, o autor refere-se aos homens e mulheres que se esforçam todos os dias em subempregos para sobreviver. As personagens desse canto recebem os nomes de alguns Orixás e de referências africanas e afro-brasileiras: Olorô-quê, Zumbi, Tição, Obatalá, Olorum, Ossonhe, Rainha Quelé, Sambongo. O narrador interpela diretamente o leitor com a pergunta ao final de cada parágrafo: “(...) tá me ouvindo bem?”. Sem nenhuma pontuação, o texto explode em uma crítica indignada aos “pré-conceitos” relacionados aos negros, mais direta no primeiro e nos últimos parágrafos: “(...) ninguém vive aqui com a bunda preta pra cima tá me ouvindo bem?” e “Hein seu branco safado? Ninguém aqui é escravo de ninguém”. “Esquece” define o que é violência aos olhos de um excluído social, que representa tantos outros. Também marcado pela falta de pontuação, o conto é um “desafogo” diante das notícias frequentes sobre o tema, veiculadas intensamente nos jornais e na televisão, através da lente das classes média e alta. Nesse conto, a vítima está do outro lado, quase sempre esquecida: “Violência é a gente receber tapa na cara e na bunda quando socam a gente naquela cela imunda cheia de gente e mais gente e mais gente e mais gente pensando como seria bom ter um carrão do ano e aquele relógio rolex mas isso fica para depois uma outra hora. Esquece”. A visão estrangeira da personagem alemã em “Alemães vão à guerra” representa o senso comum: “Nosso dinheiro salvarria, porr exemplo, as negrrinhas do Haiti”. A personagem olha para o Haiti e para Salvador como lugares quentes e cheios de amor. Porém, é possível afirmar que a noção de “estrangeiro” ultrapassa a questão da fronteira e instala-se nas diferenças entre as classes sociais, o que aponta alguns olhares estrangeiros dentro de um país tão desigual como o Brasil. Vaniclélia, personagem do conto homônimo, apanha do homem com quem vive e a quem chama de belzebu. Seu parâmetro de comparação são os “gringos”, que escolhem as mulheres no Calçadão de Boa Viagem: “Casar tinha futuro. Mesmo sabendo de umas que quebravam a cara. O gringo era covarde, levava pra ser escrava. Mas valia. Menos pior que essa vida de bosta arrependida”. No conto "Curso Superior" um jovem expõe à mãe seu medo de entrar na faculdade e não conseguir concluir o curso, por diversos motivos: porque possui deficiência nas disciplinas, tem medo do preconceito, pode engravidar a loira gostosa da turma e não conseguir nenhum tipo de emprego, porque o policial vai olhá-lo de cara feia e ele vai fazer uma besteira. Seu fim seria a prisão, sem o privilégio da cela especial. Por meio desse discurso profético, o círculo vicioso do preconceito racial e social é tratado com ironia pelo autor. O conto “Caderno de turismo” foge um pouco da temática do livro, mas não deixa de ser polêmico: “Zé, olhe bem defronte: que horizonte você vê, que horizonte? Pensa que é fácil colocar nossos pés em Orlando?” (p.69). “Nossa rainha” e “Meu negro de estimação” tratam, essencialmente, do embranquecimento do negro. O conflito entre o desejo da menina do morro de ser a Xuxa e a situação de pobreza em que se encontra faz com que sua mãe reflita sobre as diferenças sociais entre sua filha e a Rainha dos Baixinhos. A mídia, novamente, constrói um modelo que reforça o preconceito racial e social. A menina pode vir a ser a Rainha da Bateria, sonho mais próximo à sua realidade. Xico Sá questiona se o conto “Meu negro de estimação” não seria uma fábula a Michael Jackson. O narrador refere-se a seu negro de estimação como um homem melhor do que era: “Meu homem agora é um homem melhor. Mora nos jardins, veste calça. Causa inveja por onde passa. Meu homem não tem para ninguém, só para mim. Meu homem se chama Benjamin”. É importante lembrar que, na gravação em CD que Marcelino Freire fez de seus Contos Negreiros, há uma mudança significativa nesse conto: substitui-se “homem” por “negro”. Créditos: Revista Catorze, | Sálvio Fernandes de Melo, Universidade Estadual de Londrina | Moacyr Godoy Moreira, mestrando em Literatura Brasileira, USP-SP | Flávia Merighi Valenciano, Mestra em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, FFLCH-USP. ___________________________ [Resenha] "Para Viver um Grande Amor: Crônicas e Poemas" de Vinicius de Moraes __________________________ De tão bela muitos se inspiraram nela e escreveram milhares de outras palavras; alguns morreram por ela. De tão forte que é alguns nunca se permitiram sentir, outros tiveram medo por a mesma não ter um significado preciso, apenas suposições. “Para Viver um Grande Amor: Crônicas e Poemas” (Companhia das Letras, 1991), de Vinicius de Moraes, retrata o amor pela vida, pela “Bem-Amada”, à poesia, à música, o amor de amigos, amor à profissão, ao olhar do Cronista. Não sou um conhecedor da obra de Vinicius de Moraes, tanto é que este se consagrou como o primeiro livro que eu apreciei do autor, e verdadeiramente não será o último. Vinicius de Moraes revelou, com excelência, a maestria de escrever e retratar o cotidiano em sua obra, com uma linguagem direta, envolvente... Sem deixar que a mesma torna-se menos lírica e trabalhada. “Para viver um grande amor” é considerado o primeiro livro em prosa do autor, sendo que, o livro alterna poesias e crônicas escolhidas pelo próprio Vinicius de Moraes para serem publicadas. Analisando como um todo, percebi uma evolução, talvez intencional, nos temas e profundidade dos mesmos, e da própria linguagem o que agradará leitores iniciantes aos mais experientes. O livro começa com uma exortação ao exercício da crônica. Certa vez um “escritor universitário” elogiou escritores que procuravam iniciar as suas obras com aquela frase, que te surpreende; Vinicius nos traz a seguinte Frase: “Escrever prosa é uma arte ingrata”. Para amantes da escrita e da leitura em prosa, como eu, tal frase é uma surpresa e uma revelação. A partir de então começa a alternância de poesia e crônicas. As poesias são de infinita grandeza, por mais simples e curtas que sejam algumas, todas tem um alto grau de significados, nunca verás o mesmo significado duas vezes. Como se estuda na Teoria Literária: contém uma linguagem carregada de signos multivocos. Destaco algumas que, particularmente, emocionaram e me fizeram refletir, e mais: deram-me motivos para me aventurar cada vez mais no mundo da poesia. São elas: “O Poeta aprendiz”, “Carta aos puros”, “O Poeta”, “O Verbo no infinito” e “O Poeta e a Rosa”, na qual tomo a liberdade de apresenta-la logo abaixo: A Crônica é uma paixão antiga, e para aqueles que ainda não buscaram também se aventurar no âmbito da crônica, aconselho a buscar este livro. Crônicas, não importa de que época seja sempre vamos encontrar vestígios da atualidade em cada uma delas. Tomo por exemplo às crônicas “Separação” e “Namorados Públicos”, que foram escritas por Vinicius de Moraes entre os anos de 1957-1960, e lendo hoje são tão atuais quando naquela época. Ambas retratam o namoro nas praças, o jeito de namorar, o amor platônico, a sociedade... Em “Namorados Públicos” o autor chega a pedir à sociedade uma “Trégua aos namorados”. Aos estudantes de letras há neste livro abordagens úteis ao estudo da crônica e da poesia. A Crônica “Sobre Poesia” nos faz refletir (falo aqui, também como estudante de letras) e nos leva a uma possível definição do que é a poesia. Vinicius definiu o poeta como ‘estruturador de línguas’ e logo de ‘civilizações’ E não se pode esquecer se mencionar a crônica que dar nome ao livro. A crônica “Para viver um grande amor”, na minha singela opinião, é uma das mais lindas definições de amor já escrita, e traz verdadeiros ensinamentos, para alguns parecerá óbvio, mas são lindos e concretos. Dizer, por exemplo, que ‘não existe amor sem fieldade’, que para viver um grande amor prefeito ‘não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito – peito de remador’, são fatos inquestionáveis. Ao final desta edição de 1991, da editora Companhia das letras, o livro traz crônicas inéditas do autor. Um livro sempre terá um significado diferente para cada leitor, logo, para mim terminar de ler este livro é guardar na lembrança momentos incríveis de leitura no meu quarto, no ônibus, em um hospital, e acompanhado da pessoa que me apresentou esta obra. Eis aqui um livro que vale a pena ler e reler, além de se apaixonar pela poesia, pela crônica e no meu caso querer mais da obra de Vinicius de Moraes. "Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor." (Vinicius de Moraes) Por Jônatas Amara ________________________________ Resumo do livro Aves de Arribação de Antônio Sales ________________________________ Conheça mais sobre o Autor Antônio Sales nasceu a 13 de junho de 1868, na pequena localidade de Parazinho, município de Paracuru, no Ceará. Trabalhou desde muito jovem, primeiramente no comércio de Fortaleza, cidade que adotou ainda garoto, aos quatorze anos. Tornou-se autodidata, quando teve que abandonar os estudos colegiais por sua família não dispor de recursos. Tranqüilo, mas de espírito inovador, começou a publicar alguns poemas em jornais da província cearense, tendo colaborado com algumas poesias no jornal A Quinzena, órgão de divulgação da agremiação literária Clube Literário. Em 1890 lança sua primeira obra: Versos Diversos. A partir de então não pôde mais parar. Dois anos depois ele idealiza e organiza uma agremiação literária, talvez a de maior reconhecimento nacional e a mais renovadora das letras cearenses: A Padaria Espiritual.Mais conhecido pelo seu romance regionalista Aves de Arribação, de 1914, Antônio Sales foi também historiador literário, poeta e idealizou e projetou, nacionalmente, a Padaria Espiritual, da qual era o seu padeiro-mor. Antônio Sales estudou as primeiras letras na terra natal e na cidade de Soure (Caucaia), mas teve que parar, para enfrentar a dura vida do comércio, em Fortaleza, quando apenas tinha 14 anos de idade. Pai cego, família pobre, o poeta passou oito anos nesse trabalho, mas em 1888 conseguiu a nomeação para um cargo da Intendência de Socorros Públicos de Fortaleza.Entrando para a política, alcançou importantes cargos, ao lado de sua atividade jornalística e literária, o que deu na Padaria Espiritual. Irrequieto, insatisfeito, Antônio Sales parte para o Rio de janeiro (1897) e vai trabalhar no Tesouro Nacional e no Correio da Manhã, recém-fundado. Participou de rodas intelectuais no Rio e chegou a conviver com os fundadores da Academia Brasileira de Letras, mas não quis candidatar-se a uma cadeira.Em 1920 está de volta ao Ceará, onde chega bafejado pelo sucesso do lançamento de Minha Terra. Dois anos depois contribui para a reorganização da Academia Cearense de Letras. Morava em Jacarecanga, em casa modesta, onde morre no dia 14 de novembro de 1940. OBRAS: Versos Diversos – 1890(poesia); A Política é a mesma – 1891(teatro); Trovas do Norte(poesia) – 1895; Poesia – 1902; O Babaquara – 1912(História política do Ceará); Aves de Arribação – 1914; As Leituras(Palestra) – 1918; Panteon(poesia) – 1919; Minha Terra (poesia) – 1919; O Matapau(teatro) – 1931; Retratos e Lembranças(memórias) – 1938; Águas Passadas(poesia) obra póstuma; Fábulas Brasileiras – obra póstuma; Estrada de Damasco – romance que o poeta deixou inacabado. RESUMO DO LIVRO Ipuçaba encontra-se festiva. Todos esperam a chegada do novo promotor de justiça: Alípio Flávio de Campos, sobrinho do novo vigário da cidade. Padre Balbino substituíra Serrão, um padre desprovido de valores evangélicos; mais preocupado com a política local e com os benefícios da igreja do que com os paroquianos. Deste modo, Pe. Serrão envolvera-se politicamente com João Ferreira, chefe do Partido Conservador. Chefia conquistada por meios ilícitos.João Ferreira ao chegar a Ipuçaba, não passava de um rapaz magro, imberbe e miserável. Aos poucos conquista a amizade do Major José Herculano, este, encantado com a disposição do jovem, proporciona-lhe crédito na praça e dinheiro para que João Ferreira pudesse estabelecer-se comercialmente na cidade.Mesmo com o comércio crescendo, J. Ferreira, tempos depois, declara-se falido. E com isso o Major é obrigado a pagar a conta. Não tarda e descobre-se que a falência de João Ferreira não passava de uma fraude e ele vai parar na prisão. Depois de um ano preso, João Ferreira retorna à Ipuçaba cheio de ódio e com um grande carregamento de mercadorias, junte-se a isso a nomeação de delegado e a credencial de chefe do Partido Conservador.Padre Serrão dominado pela ambição tornou-se logo aliado político de João Ferreira o qual cada vez mais via seu poder político crescer. Com a proclamação da república, J. Ferreira declara-se monarquista e o mesmo é destituído do poder. Pouco depois morre Padre Serrão, deixando seu rico legado ao seu sobrinho, José Serrão.Padre Balbino, diferente de seu antecessor, não tinha vocação para a política, evitando relações com João Ferreira, no entanto se aproximava de Chico Herculano, filho do Major, e encarregado de juntar “elementos para o novo partido filiado ao Centro Republicano”.É comum, dentro da obra, a representação de costumes tipicamente cearenses. Um desses é a roda de palestra ao final das tardes. Através dessa tentativa de representar os costumes locais temos uma das principais características da obra que é o tom costumbrista. Outro ponto importante é a sempre veiculação, na apresentação da personagem, à sua profissão. Teremos na primeira roda de conversa, além do Padre Balbino, o bodegueiro Lucas, o coletor Asclepíades Orestes de Aconcágua Pinto, o escrivão Casimiro e o professor Agrela. Todos jogam Gamão e conversa fora, um velho entretenimento interiorano.A narrativa prossegue e temos em seguida um perfil do nosso protagonista: Alípio Flávio de Campos. Fica claro o caráter boêmio do promotor. Quando na faculdade de Direito, em Recife, dedicando-se à rodas literárias e à vida noturna, além de polemizar em jornais. Com a morte do pai, seu tio, Balbino, assumiu a tutela e passou a cobrá-lo, ameaçando cortar mesada se ele não se formasse. Aos vinte e quatro anos, Alípio se diploma. O tio arranja-lhe logo o convite para que ele assumisse a promotoria da comarca de Ipuçaba.Por conseguinte a sua chegada, temos o padre Balbino preocupado com os preparativos para a recepção de seu sobrinho. O padre conta com a ajuda de Chico Herculano e os cidadãos próximos ao padre.O promotor chega por volta do meio-dia sob o olhar curioso de toda a cidade. Ao apear o cavalo é recebido com “vivas”. Inicia-se um almoço seguido da apresentação dos íncolas de Ipuçaba ao ilustre promotor. Do almoço encarregou-se Asclepíades, uma vez o vigário não dispunha de espaço nem de pessoas para realizá-lo. O jantar ficou por conta do Major José Herculano que preparava um jantar dançante para todos os convidados. Após o jantar, com a sala cheia de moças e rapazes, a banda toca uma quadrilha para que todos dançassem.Aesta altura, Alípio já havia conhecido Florzinha, filha do Coletor Asclepíades e passa a conhecer Bilinha, professora pública. A música segue e Alípio dança a primeira quadrilha com a professora “e no correr da festa, que acabou pela madrugada, ele levou a revezar as duas raparigas, experimentando sucessivamente as impressões diferentes que elas lhe davam... /... comparando-as, ora para deduzir uma preferência, ora fundindo-as para completar um tipo ideal de mulher, decidiu antes de adormecer que, faltando a uma requisitos possuídos pela outra, ele, como poeta e como homem, o que tinha a fazer era requestar a ambas.”Temos aqui o início do conflito central da obra, o triângulo amoroso formado por Alípio, Bilinha e Floriza.A estória prossegue, Alípio, que pensara que se entediaria numa cidade tão pequena e vulgar, oito dias depois de sua chegada, sente-se surpreso, pois já estava quase adaptado àquela vida; tinha hábitos sertanejos, acordava cedo, bebia leite mugido, tomava banho no rio, lia jornais enquanto merendava com o tio, depois do almoço, ia a fazer sua visitas. Destas, destaca-se as que ele fazia à casa do coletor e à casa de Maria Lina, mãe de Bilinha.O tempo passa e Alípio se faz amigo de Matias Araújo, um poeta sem sucesso que vivia as lamentações de sua pobreza (chegara até a pensar em suicídio). Matias afasta-se de Alípio quando percebe suas intenções para com a Florzinha, uma vez que Matias vertia puro e intenso sentimento.Alípio corteja as duas moças. Asclepíades vê em Alípio um possível genro bacharel, desejo que lhe invadia há tempos, e por isso ele não poupa esforços para realizá-lo. Florzinha detestava a idéia de ter Alípio como seu noivo, visto que ela se sentia atraída por Matias. Aqui podemos apontar a presença na narrativa um aspecto um tanto quanto romântico: o amor platônico, embora a obra seja realista de tendência regionalista.Delineia-se a narração e o bacharel com o pretexto da jogar víspora freqüenta quase todas as noites a casa de Bilinha, constância só interrompida quando D. Helena, mulher de Chico Herculano, adoece e Bilinha assume o cargo de enfermeira.Florzinha, quando lhe davam notícias do possível noivado da mesma com Alípio, ficava inquieta e chorava. Certa feita, Asclepíades chega a casa, junto a ele Alípio, para cearem; perguntam por Florzinha e D. Claudina, já percebendo o desapontamento da filha com a situação, desculpa-se dizendo que ela havia se retirado por estar com dor de cabeça. Ambos ficaram desapontados. Alípio chega a pensar sobre o possível envolvimento de Floriza com outro, uma vez que ele percebera certo distanciamento da moça, mas concluiu, galanteador que era, que tudo não passava de ciúme que Florzinha vertia por ele freqüentar constantemente a casa de Bilinha.Várias são as passagens em que o narrador descreve toda a beleza do sertão florido, chuvas em abundância e a fauna e a flora sertanejas espargindo-se do seio da terra. Durante o mês de abril, mês das águas mil, Capitão Galdino, tio de Florzinha, levava a sobrinha para uma temporada em sua fazenda na Varjota. A temporada na fazenda do tio surge como uma salvação para aquele momento inquietante por que passava Florzinha. Antes da ida de Florzinha, o narrador nos deixa sabedores dos boatos que circulavam na cidade sobre o triângulo amoroso que se configurava. Alípio continuava suas visitas, ficando até as vinte horas na casa de Florzinha e finalizava a noite em casa de Bilinha. Asclepíades toma conhecimento dos boatos, entretanto faz de conta que não sabia. O coletor procura uma forma para distanciar Bilinha de Alípio.A viagem de Florzinha ocorre mesmo a contragosto do pai, que queria a moça próxima do promotor.Depois da partida da menina, Alípio pensava sobre as atitudes dela, pensava sobre Bilinha e concluía que a sua predileção era pela professora, visto que esta “não pedia nada e podia conceder tudo”.As visitas à casa de Bilinha recomeçam, numa dessas o jogo de víspora não acontece. Alípio aproveita da situação para investir no seu desejo. Depois de algum tempo de prosa, com intensos elogios, deixando-a envergonhada o promotor tenta abraça-la, mas ela resiste. Alípio retoma seu intento com palavras maviosas e Bilinha acaba por ceder e se deixa beijar pelo conquistador. A cena só é interrompida com a chegada de Chico Herculano, que, com sua presença repentina, deixou o casal desajeitado.Algum tempo depois da acontecência, Alípio adoece gravemente da garganta. Asclepíades, acreditando no “dedo” da providência, toma para si e para sua esposa os cuidados com o Bacharel. Após cinco dias de febre, o enfermo melhora. Pinheiro (um tipo de médico sem “canudo”) sugere que o promotor vá respirar novos ares, se a febre não retornar. Asclepíades, com o consentimento do Padre Balbino, leva-o para Varjota. Na fazenda, a febre volta a acometê-lo. Pinheiro é chamado outra vez. Alípio melhora e recebe a visita dos amigos, entre eles, Casimiro, que, ao ser indagado pelo amigo sobre a professora, responde que a mesma anda recebendo visitas de Florêncio, moço de Pernambuco. Alípio é assomado pelo ciúme.Passam-se os dias, numa manhã, ao voltar de uma caçada, o bacharel fica a olhar Florzinha e Luisinha a tomarem banho nuas no riacho. Ele se espanta com tamanha perfeição e beleza física de Florzinha. A partir desse momento, percebe-se que Alípio muda sua opinião sobre a moça, chegando a confidenciar a Luisinha que pediria Florzinha em casamento.Alípio retorna a Ipuçaba, sabe através de Casimiro que a professora é visitada todas as noites por Florêncio. O promotor pediu-lhe que o ajude, fazendo com Florêncio não fosse visitar Bilinha aquela noite para que Alípio pudesse conversar a sós com a professora.Casimiro assim o faz. Já no da conversa Bilinha chora, demonstrando seu afeto pelo promotor. Este reclama por ela não ter ao menos se preocupado com sua saúde. Bilinha retruca e afirma que passou noites em branco preocupada com o bacharel. Alípio pediu-lhe perdão e Bilinha, ainda chorando, pediu a Alípio um favor: arranjar uma transferência para outra cidade. Alípio concorda.O tempo passa e Alípio trata de distanciar Florêncio de Bilinha. Dizendo primeiro a Casimiro para que este transmitisse a Florêncio que Bilinha era viúva. Ainda perdura uma indecisão por parte de Alípio com relação às duas moças.A professora envia um recado a Alípio, pedindo a presença do mesmo em sua casa. Queria declarar o seu amor ao promotor. Espera inutilmente. Dominada pelo ódio, devido à ausência de Alípio, ela aceita o pedido de Florêncio. Este tratou de espalhar nos quatro cantos da cidade que Bilinha lhe dissera “sim”. Alípio, diante da afronta, noiva com Florzinha. Pouco depois, Alípio viaja para a capital, onde já se encontrava a professora. Florzinha, enciumada, fica a esperar o noivo. Este he manda notícias cada vez mais desanimadoras. Os dias se sucedem e Florzinha continua esperando. É evidente na narrativa a analogia entre os amantes (Bilinha e Alípio) e as aves de arribação. Os dois foram em busca de terras mais propícias. Enquanto Florzinha esperava, esperava, esperava... ELEMENTOS DA NARRATIVA Narrador: A estória é narrada com um narrador heterodiegético, ou seja, narrador-observador ou em 3ª pessoa. Tempo: A narrativa se desenrola durante as duas últimas décadas do século XIX. Personagens: Protagonistas: Alípio Flávio de Campos; Bilinha; Florzinha.Secundários: Padre Serrão; João Ferreira; Major José Herculano; Chico Herculano; Asclepíades; Casimiro; Padre Balbino; Dona Claudina; Venâncio; Benvinda; Luisinha; Cazuza; Matias; Florêncio; Zé Pipoca. Este volume apresenta ao leitor todas as odes atribuídas a Reis. Também estão incluídos no livro versos e poemas anotados com pequenas alterações feitas pelo poeta, chamados de variantes, inseridos como notas de rodapé. De acordo com a biografia criada pelo próprio Pessoa, Ricardo Reis nasceu em 1887 no Porto e estudou em um colégio de jesuítas. Foi médico e fixou residência no Brasil desde 1919. Reis é o heterônimo neoclássico, da métrica perfeita, da temática pagã e da consciência da passagem rápida do tempo. Entre seus temas recorrentes podemos citar o do sofrimento diante dos mistérios da vida e da morte e as relações com as suas musas, Lídia, Neera e Cloe. Segundo a avaliação de Pessoa, “Reis escreve melhor do que eu, mas com um purismo que considero exagerado”. Antes de tudo, é importante se esclarecer no que se constitui uma ode. É um modelo clássico de composição poética oriundo da Grécia Antiga. Tipo de texto cantado e acompanhado pela lira (instrumento musical). Possuidor de estrofes semelhantes pela métrica estabelecida, geralmente se compõe de quatro versos em cada estrofe, porém, não é regra geral. Antes de tudo, é importante se esclarecer no que se constitui uma ode. É um modelo clássico de composição poética oriundo da Grécia Antiga. Tipo de texto cantado e acompanhado pela lira (instrumento musical). Possuidor de estrofes semelhantes pela métrica estabelecida, geralmente se compõe de quatro versos em cada estrofe, porém, não é regra geral. "Poema lírico de forma complexa e variável, a ode caracteriza-se pelo tom elevado e sublime com que trata determinado assunto. As literaturas ocidentais modernas aproveitaram sobretudo, do ponto de vista da forma, a ode composta por três unidades estróficas, correspondentes, no desenvolvimento da idéia do poema, à estrofe, à antístrofe (cantada pelo coro, originalmente) e ao epodo (conclusão do poema). A ode comportava uma série de esquemas métricos e rítmicos, de acordo com os quais era classificada." _________________ AS ODES DE RICARDO REIS, de Fernando Pessoa __________________ As primeiras obras de Ricardo Reis foram publicadas na revista Athena (fundada por Pessoa) em 1924. Algum tempo depois foram publicadas mais oito odes na revista Presença. O restante dos poemas e prosas são de publicação póstuma. Como Fernando Pessoa mesmo disse, Reis é o heterônimo neoclássico, da métrica perfeita, da temática pagã e da consciência da passagem rápida do tempo. Dessa forma, se acomete de algumas características em comum com Alberto Caeiro, outro heterônimo de Pessoa (bio aqui). Com grande uso de hipérbato (figura de linguagem que consiste em trocar a ordem direta dos termos da oração (sujeito, verbo, complementos, adjuntos) ou de nomes e seus determinantes.), Reis também se mune de vocabulário extremamente erudito, preciso e com manifestação imperativa demonstrando atitude filosófica. Podemos encontrar lemas árcades inclusos em sua obra, a exemplo do Carpe Diem (Aproveite o Dia, aproveite com intensidade o presente) e Aurea Mediocritas (Mediocridade Áurea, ou seja, valorizar as coisas cotidianas). Além disso, Reis procura aceitar calmamente o destino e opta por não viver grandes emoções, sendo uma espécie de disciplina. Faz renúncia da vida através da recusa do amor e da consciência da inutilidade do esforço de mudança, já que o destino “é força superior ao homem”. Recusa o amor para evitar desilusões de maneira que nada modifique a serenidade e razão já estabelecidas, uma vez que tudo na vida tem um fim. Trechos que gostei e reservei para compartilhar com vocês: Pequeno é o espaço que de nós separa O que havemos de ser quando morrermos. Não conhecemos quem será o morto De hoje que então acaba. Só o passado, comum a nós e a ele, Será indício de que a nossa alma Persiste e como antiga ama, conta Histórias esquecidas… Se pudéssemos pôr o pensamento Com esta visão adentro de ideia Que havemos de ter naquela hora, Estranhos olharíamos O que somos, cuidando ver um outro E o espaço temporal que hoje habitamos Luz onde nossa alma nasceu Alheia antes de a termos. p.94 (31/1/1922) Pequenos fragmentos da contra-capa: Segue o teu destino, Rega as tuas plantas, Ama as tuas rosas. O resto é a sombra De árvores alheias. A realidade Sempre é maios ou menos Do que nós queremos. Só nós somos sempre Iguais a nós própios. [...] Vê de longe a vida. Nunca a interrogues. Ela nada pode Dizer-te. A resposta Está além dos deuses. Mas serenamente Imita o Olimpo No teu coração. Os deuses são deuses Porque não se pensam. E como último legado do mestre, deixo breve texto dito por ele: "Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: ‘Navegar é preciso, viver não é preciso’. Quero pra mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar. Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo. Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha. Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho na essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade. É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa raça." ______________ O SILENCIO LAMINADO - ________________ Ele veio ao mundo em 1973, em Orós, mas fez de Barro sua morada como o joão que nos dá lições de chuvas. Professor por acidente, alumiou-se lamparinoso na incandescência do verso. Estava escrito desde os cafundós das eras: serás poeta por cima de pau e pedra. Cleilson Ribeiro mira dos alpendres telúricos, varizes e rugas da terra ressequida e fareja o cheiro feudal de uma saudade incendiária. Depois, num soluço banido de seu estro, cavalga as ossaturas das cacimbas em busca de uma água sem insígnia. Ser poeta é sua sina, o resto é presságio. É o poema que o põe em descaminho, instaurando um lugarejo de fogo, gravado no sal da palavra, verdadeiro afago de chicotes. Por isso foi, com devidas precauções, que em 2004 me hospedei nas páginas auríferas do seu "Do olhar mirando para trás". Diante de tanta fartura poética, pensei que o vate havia se esvaziado por ali, pelo resto dos dias. Mas agora vem ele sertânico, incendiário e incandescente, desembeiçando doidices metafóricas e botando as coisas para enxergá-lo no vazio. Poeta polidor de verbos, amola as ferramentas imagéticas e sai plantando atrevimentos poéticos. Esse agora "O silêncio laminado no casulo" ganhou o prêmio Caetano Ximenes Aragão, mas merecia ganhar todos os prêmios que por aqui se distribuem como o melhor livro de poemas de 2011. Acontece que o rapaz vive de tocaia lá no Barro do Major Zé Inácio, contando os calos que a mão lhe oferece, e cantando litanias à desolação e ao desassossego. Como seu avô, vive "ansioso por ver pingar do ventre das nuvens / um certo rio acantoado, / que se guarda no coração das chuvas". Dessas chuvas brotam caudalosos rios de palavras. O que canta esse moço? A vida que se esconde nas canções descabeladas e esquecidas sob a fuligem ancestral dos caminhos. Canta encantamentos, com seu olhar feito de mundo. Humaniza coisas predestinadas ao esquecimento de seus códices. Pode ser uma procissão de poeirentos olhares, uma tardezinha rejeitada pelo dia ou uma novena pesarosa cuja ladainha são resmungos de coisas perdidas. Por isso que, telúrico, esbanja conhecimentos do chão que o viu brotar, desde o nascimento das chuvas aos estertores da tarde que o sol salgou com sua língua de fogo. Por conhecer seu chão, seu adubo, é que ele canta a agrestividade da falta de chuva, que inferniza a paciência dos mais velhos, rói a esperança, enquanto ciranda o desespero, estilhaçando a paisagem com as lâminas da ventania. Quando termina o dia de fogo vertical, "a noite caminha sob a salmoura das pedras", assobiando palavras desusadas. Para enfrentar essa fornalha é preciso o couro curtido, herdado das gerações pretéritas, e a palavra poética feito brisa de outubro. É preciso adormecer entre suores e acordes de palavras que brotam de "uma voz antiga retendo dores num ladrilho". Cleilson Ribeiro semeia escamas que transformam esquecimentos em lembranças, desesperos em alvíssaras. Essa mania de aguar gravetos que se tornam plantas é milagre que só poetas transfiguram, derretendo resíduos de linguagens. Cleilson Ribeiro transforma a morte em passarinho. Depois alimenta revoadas com imagens barrocas cravadas em adjetivos inusitados e locuções provocadoras. É então que brotam: "sorrisos enferrujados", "lembranças idosas", "palavras esfaqueadas", "résteas ensanguentadas", "olho exausto", "aboio extenuado", "vilarejos desesperançados", "horizontes engaiolados" e "dias destroçados". Insatisfeito com essa adjetivação que é bem mais ampla, ele parte para o uso das locuções adjetivas ainda mais arrepiantes. Então vão aparecendo: "varizes da terra", "ossaturas das cacimbas", "sal da palavra", "afago dos chicotes", "ventre das nuvens", "fio de vento", "pólen de deus", "cinzas da eternidade", "latifúndios dos retratos" e "pupilas do tempo". OUTRO IMPORTANTE BLOG QUE DIVULGA AS OBRAS: http://www.joserobertoduarte.com.br/vestibular/resumo-de-obras/item/2661-resumo-das-obras-indicadas-para-o-vestibular-2014-1-da-urca FOnte: Coluna Batista de Lima - Caderno 3 - DN Foto: Wilson Bernardo - See more at: http://blogdocrato.blogspot.com.br/.../o-verbo-arido-do... Postado por Isabella Colmanetti Marcadores: Fernando Pessoa, Modernismo, Poesias, Resenhas, Ricardo Reis http://www.supervestibular.com/obras-literarias/ www.supervestibular.com http://www.supervestibular.com/obras-literarias/ www.supervestibular.com

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